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Brasil em Lisboa. Os novos negócios que estão a mexer com a cidade

WOZEN: Johnny e Rique Inglez

WOZEN: Johnny e Rique Inglez

Continua a ser a maior comunidade de imigrantes do país. Segundo dados divulgados pelo SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) no passado mês de junho, referentes a 2018, um em cada cinco estrangeiros a viver em Portugal é brasileiro — quase 105.500 cidadãos. Ainda assim, face ao ano anterior, o aumento dos pedidos de autorização ficou na casa dos 147%.

Na hora de deixar o Brasil e de vir de armas e bagagens para Portugal, a segurança continua a ser um tópico preponderante. A mudança é mais planeada e quem chega agora demarca-se, em parte, da vaga de imigração dos final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Os cidadãos brasileiros aterram com mais qualificações e, muitas vezes, com dinheiro para investir em pequenos e médios negócios e “não só para trabalhar e mandar remessas para o Brasil”, como afirmou Cíntia de Paulo, no passado mês de abril, em entrevista à Lusa.

O fenómeno não é alheio ao desfecho político mais recente, mas os fatores económicos e sociais também contribuem para a decisão. “E sentimos que há um descontentamento e uma incerteza do que vai ser o Brasil, no próximo mês, por exemplo. No próximo ano, então, a incerteza é muito maior”, reiterou a presidente da Casa do Brasil.


Brasileiros em Portugal: pressa, calma e outros contrastes

“A gente saiu do Brasil meio refugiado”, admite Rique Inglês, tatuador e proprietário da Wozen, galeria de arte pouco convencional, inaugurada em junho de 2016. As declarações são de intervenção. Tem 32 anos, vive em Portugal há quatro, mas não é por isso que deixa de acompanhar e de sentir, quase como na própria pele, os desenvolvimentos políticos e sociais no seu país de origem. Mesmo a milhares de quilómetros de distância, a ascensão de Bolsonaro é uma pedra no sapato. “O nosso presidente é um racista, homofóbico, fascista, misógino. Se já era difícil fazer arte, hoje não consigo imaginar. Gente muito boa está saindo do Brasil, muitos mais brasileiros virão para cá. Ao mesmo tempo, esse é um momento histórico para a arte se posicionar”, continua.

Rique não está sozinho. À frente do espaço está também João Marcus Cavalcanti, o amigo de adolescência que chegou a Lisboa no ano seguinte. “As pessoas têm uma ideia de que o Brasil é um lugar de liberdade, mas é uma prisão a céu aberto”, afirma, remetendo para os problemas de segurança no país. Por cá, não quiseram abrir só mais uma galeria. Depois de mais de dois anos a ocupar a loja do lado com residências artísticas, a Wozen está agora a voltar-se para um calendário de micro residências, mais curtas e proporcionando um espaço de trabalho para os artistas numa fase bem mais inicial do processo criativo. As também brasileiras Marta Rosas e Mari Cecchini (na fotografia de abertura) fazem parte de uma primeira leva de autoras e usam o espaço para trabalhar num projeto próprio de fotografia e vídeo, o Casulo. Entre as obras que ocupam as paredes, um exército de plantas à entrada, a instalação que está na montra e um estúdio de tatuagens que funciona no andar de cima, a pluralidade das expressões artísticas percebe-se de imediato.

“Não queremos ser aquela galeria preocupada em vender, queremos dar liberdade total aos artistas”, refere Rique. A disrupção com os conceitos predominantes é total. Expanded Eye, dupla britânica que também acaba de se mudar para Lisboa, é um bom exemplo. As peças que deixaram na galeria, após meses de residência, são o resultado da colaboração de todo o bairro. As cadeiras velhas (e outros objetos de madeira inutilizados) foram trazidas pelos vizinhos e deram origem a obras escultóricas que inspiraram o duo, que também tatua, a passar a arte para a pele.

Ao ouvi-los falar, é impossível não visualizar uma espécie de sonho português. Nele, Lisboa é uma Silicon Valley das propostas artísticas e culturais — com espaço e tempo para que projetos como este possam florescer, mais barata do que metrópoles fervilhantes como Londres e Paris. Um contexto, em tudo, diferente do Brasil. “A filosofia de empreender no Brasil é muito acelerada. O tempo que um negócio demora a ter uma identidade não existe. É a filosofia norte-americana. Abres um bar e já estás a pensar no franchising, explica João, demonstrando a inviabilidade de um projeto como a Wozen do lado de lá do Atlântico. Pelo contrário, a vinda para Portugal exigiu uma dura adaptação. Tudo parece drasticamente “desacelerado”, usando a expressão da dupla. Rique já cunhou, entretanto, uma outra — “capital paciente”.

Ainda assim, não se podem queixar. A cidade soube receber esta proposta cultural, os potenciais compradores entram naturalmente, atraídos pela atmosfera incomum. Há poucas semanas, puseram em funcionamento um bar de apoio, mais um pretexto para as visitas fortuitas. Sem o espaço do lado, a próxima residência artística será em Marvila. De portas abertas a uma nova geração de criadores, a brasileira Maria Lynch será a próxima a dar provas de talento aqui >>> a conferir em Wozen Residency


Wozen Crew: Rique Inglez, Marta Rosas, Johnny e Mari Cecchini

Wozen Crew: Rique Inglez, Marta Rosas, Johnny e Mari Cecchini

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